1842 — 1927
"O Rei do Café"
Fazendeiro, empresário e maior cafeicultor de Minas Gerais.
Presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais.
Cândido Bernardino Teixeira Tostes (1842–1927)
Quando Cândido Bernardino Teixeira Tostes morreu em 1927, aos 85 anos, já era reconhecido como um dos homens mais influentes de Minas Gerais. Conhecido como "Dr. Candinho" e chamado por seus contemporâneos de "Rei do Café", destacou-se como fazendeiro, empresário e presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais.
Nascido em Juiz de Fora em 1842, era filho de João Antonio Tostes (1796–1865) e Theresa Firmiana de Carvalho (1807–1892). João Antonio era irmão de Antônio Dias Tostes, o patriarca que lançou os alicerces da fortuna e da influência da família na região de Juiz de Fora, tornando Cândido sobrinho direto do fundador das terras onde a cidade cresceu. Formado em Direito, dedicou sua vida à administração de propriedades rurais e à expansão dos negócios familiares.
Foi proprietário de importantes fazendas da Zona da Mata, entre elas a São Mateus e a Fortaleza de Sant'Anna, esta última incorporada ao seu patrimônio após uma longa disputa envolvendo heranças e dívidas. Além de sua atuação empresarial, participou da fundação da Liga Mineira Contra a Tuberculose, em 1900, e esteve envolvido em diversas iniciativas filantrópicas e religiosas de Juiz de Fora.
Antônio Dias Tostes
A história de Cândido Teixeira Tostes começa com o tio, Antônio Dias Tostes (1777–1850), que formou o patrimônio fundiário da família na região de Juiz de Fora.
Os Tostes eram originários de São João del-Rei, onde acumularam riqueza durante o ciclo do ouro. Com o declínio da mineração no final do século XVIII, como ocorreu com diversas famílias mineiras da época, voltaram-se para uma nova atividade econômica: a agricultura. O destino escolhido foi a região da Zona da Mata, então em processo de ocupação.
Foi ali que Antônio Dias Tostes começou a comprar terras. Beneficiado por sesmarias e por sucessivas aquisições de terras, tornou-se um dos maiores proprietários da região. Em 1808, comprou de Francisco Gonçalves Lage parte da Fazenda Marmelo, uma das propriedades mais antigas da futura Juiz de Fora. Poucos anos depois, em 1812, adquiriu de José Vidal a Fazenda do Juiz de Fora e o restante da Fazenda Marmelo.
Além dessas terras, Antônio Dias era proprietário da Fazenda Graminha e de extensas áreas que deram origem a outras propriedades importantes da região. Entre elas estava a Fazenda Fortaleza, uma das mais antigas do município, posteriormente vendida em 1841 e incorporada a outros grandes patrimônios rurais da Zona da Mata.
A importância da família Tostes ultrapassou a atividade agrícola. Ao lado das famílias Vidal Leite, Barbosa e Cerqueira Leite, os Tostes integraram o grupo de proprietários que participou da formação econômica e territorial de Juiz de Fora. Por décadas, essas famílias exerceram forte influência sobre a vida política e econômica da região.
Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld
O legado de Antônio Dias Tostes também deixou marcas permanentes na própria configuração urbana da cidade. Após sua morte, suas terras foram divididas entre seus doze filhos. Essa partilha deu origem ao primeiro núcleo efetivo de povoamento na margem direita do rio Paraibuna: as terras foram divididas em 12 faixas paralelas e transversais à Estrada Nova, a atual Avenida Rio Branco, traçada pelo engenheiro Henrique Halfeld. Não por acaso, Halfeld era casado com Cândida Maria Carlota Tostes, filha de Antônio Dias Tostes.
Foi nesse ambiente que nasceu, em 1842, Cândido Teixeira Tostes. Filho de João Antonio Tostes, irmão do patriarca Antônio Dias Tostes, herdou a proximidade com as terras que deram origem à cidade e uma posição de destaque na sociedade local. Tornou-se um dos maiores cafeicultores de Minas Gerais.
Maria Luiza de Rezende Tostes
O casamento de Cândido Teixeira Tostes com Maria Luiza de Rezende uniu duas das famílias mais influentes da história de Juiz de Fora e da Zona da Mata Mineira.
Maria Luiza era filha de Geraldo Augusto de Rezende, o Barão do Retiro, e de Maria Carlota Mendes Tostes. Seu pai foi vereador, presidente da última Câmara Municipal de Juiz de Fora durante o período monárquico e um dos fundadores do Asilo João Emílio. Grande proprietário rural e figura de destaque na vida pública local, recebeu de Dom Pedro II o título de Barão do Retiro em 1889.
Pelo lado paterno, Maria Luiza era neta de José Ribeiro de Rezende, o Barão de Juiz de Fora. Foi presidente da Câmara Municipal entre 1853 e 1856, juiz de paz, tenente-coronel da Guarda Nacional e proprietário de extensas terras na região. Em 1881, recebeu de Dom Pedro II o título de Barão de Juiz de Fora. Entre suas contribuições para a cidade, destaca-se a doação do terreno onde foi construído o primeiro cemitério público municipal.
Geraldo Augusto de Rezende, pai de Maria Luiza. Vereador, presidente da última Câmara Municipal monárquica de Juiz de Fora e fundador do Asilo João Emílio. Título concedido por Dom Pedro II em 1889.
José Ribeiro de Rezende, avô paterno de Maria Luiza. Presidente da Câmara Municipal (1853–1856), tenente-coronel da Guarda Nacional. Título concedido por Dom Pedro II em 1881.
A união ligou os Tostes, que haviam formado o patrimônio fundiário da região, aos Rezende, que ocupavam os cargos públicos da cidade desde o Império.
O casal teve sete filhos: Sebastião de Rezende Tostes, Maria Malta, Matheus de Rezende Tostes, José de Rezende Tostes, Antônia de Rezende Tostes, Cândida de Rezende Tostes e João de Rezende Tostes.
Cândido Bernardino Teixeira Tostes
Nas últimas décadas do século XIX, Cândido Teixeira Tostes tornou-se um dos maiores produtores de café de Minas Gerais. À frente de extensas propriedades rurais na Zona da Mata Mineira, construiu uma fortuna baseada principalmente na cafeicultura.
Suas fazendas produziam café em larga escala, mas também mantinham atividades complementares, como o cultivo de cereais, arroz, feijão, cana-de-açúcar e fumo, além da criação de gado, produção de leite, laticínios e aguardente.
Ao longo da vida, reuniu algumas das mais importantes propriedades rurais da Zona da Mata, entre elas as fazendas São Mateus e Fortaleza de Sant'Anna.
"A dimensão de suas terras, o volume de sua produção e sua posição de destaque entre os grandes proprietários rurais fizeram com que fosse reconhecido por seus contemporâneos como o maior cafeicultor de Minas Gerais."
Foi dessa reputação que surgiu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: "Rei do Café".
Entre todas as propriedades de Cândido Teixeira Tostes, nenhuma esteve tão associada ao seu nome quanto a Fazenda São Mateus. Localizada a cerca de 12 quilômetros do centro de Juiz de Fora, a fazenda tornou-se o principal símbolo de sua fortuna e da dimensão de seus empreendimentos agrícolas.
Adquirida por Cândido Tostes em 1890, a propriedade transformou-se em uma das maiores fazendas da Zona da Mata Mineira. Com aproximadamente 2.397 hectares, figurava entre os maiores estabelecimentos rurais da região em uma época em que a cafeicultura representava a principal atividade econômica de Minas Gerais.
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 19/04/1934
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 1934
Fazenda São Mateus – Visita de Getúlio Vargas, 1934
Foi na Fazenda São Mateus que Cândido Tostes consolidou a posição que lhe renderia o apelido de "Rei do Café". A relevância histórica da fazenda permaneceu mesmo após a morte de seu proprietário. Em maio de 1935, o governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, transferiu temporariamente a sede do governo estadual para a Fazenda São Mateus. Foi ali que promulgou o decreto que criou a Indústria Agrícola Cândido Tostes, homenagem ao fazendeiro que havia transformado a propriedade em uma das mais importantes da história da agricultura mineira.
Décadas depois, o nome de Cândido Tostes continuaria ligado ao ensino e à pesquisa agropecuária por meio do tradicional Instituto de Laticínios Cândido Tostes, uma das instituições mais conhecidas de Juiz de Fora.
A incorporação da Fazenda Fortaleza de Sant'Anna ao patrimônio de Cândido Teixeira Tostes foi resultado de um processo de heranças, dívidas e disputas judiciais que se arrastou de 1870 a 1901.
Antes de chegar às mãos de Cândido, a propriedade pertenceu a algumas das famílias mais importantes da região. Suas origens remontam ao início do século XIX, quando fazia parte das terras dos Pereira de Souza. Posteriormente, passou ao Tenente José Joaquim de Santana, de quem herdou o nome que conservaria ao longo das décadas.
Após a morte do Tenente, em 1845, a fazenda foi herdada por sua filha, Maria José de Santana, que recebeu o título de Baronesa de Santana em 1861. Ao lado de seu filho, o Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, transformou a propriedade em uma das mais importantes fazendas cafeeiras da Zona da Mata Mineira. Em seu auge, a fazenda possuía centenas de escravizados e figurava entre os maiores empreendimentos agrícolas da região.
A morte da Baronesa, em 1870, deu início a um longo processo sucessório. Em fevereiro de 1890, Cândido Teixeira Tostes concedeu a Frederico Ferreira Lage um empréstimo hipotecário de 200 contos de réis, tendo a fazenda como garantia. Em 1901, após os herdeiros não conseguirem liquidar a dívida, a propriedade passou definitivamente para seu patrimônio.
Maria Luiza de Rezende Tostes e Getúlio Vargas
Sede da Fazenda Fortaleza de Sant'Anna
Sede da Fazenda Fortaleza de Sant'Anna
Fazenda Sant'Anna
Fazenda Sant'Anna
Capela da Fazenda Sant'Anna
Uma das primeiras propriedades incorporadas ao patrimônio da família. Em 1808, Antônio Dias Tostes adquiriu parte da fazenda e, em 1812, concluiu a compra das terras. É uma das propriedades mais antigas da região de Juiz de Fora.
Também pertencente a Antônio Dias Tostes, integrava o conjunto de grandes propriedades que deram origem à fortuna da família. Localizada ao sul do atual município, desempenhou papel importante na expansão das atividades agrícolas dos Tostes durante o século XIX.
Esteve ligada à trajetória da família desde o período de formação de Juiz de Fora. Situada em uma área ocupada desde os tempos do Caminho Novo, passou pelas mãos de integrantes da família Tostes e permaneceu associada à presença do grupo na região ao longo do século XIX.
Como outros membros da elite juiz-forana de seu tempo, participou de instituições voltadas à assistência social, à saúde e à vida religiosa da cidade.
Em 1900, integrou a primeira administração da Liga Mineira Contra a Tuberculose, entidade criada em Juiz de Fora para combater uma das doenças mais graves da época. A Liga reunia médicos, empresários, fazendeiros, advogados e lideranças locais que buscavam arrecadar recursos e promover iniciativas de assistência à população.
Os registros da instituição apresentam Cândido Tostes como bacharel em Direito, agricultor, católico e participante de outras organizações beneficentes da cidade.
Benemérito da Santa Casa de Juiz de Fora
A atuação filantrópica da família também contou com a participação de sua esposa, Maria Luiza de Rezende Tostes. Integrante do grupo das chamadas "Damas Protetoras" da Liga Mineira Contra a Tuberculose, ela colaborou com a rede feminina responsável pela organização de eventos beneficentes, mobilização de recursos e apoio às ações assistenciais da entidade.
Além da Liga, Cândido Tostes participou da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, uma das mais tradicionais instituições religiosas de Juiz de Fora.